a contradição é um privilégio
Tenho andado bastante de ônibus, porque dirigir me é cada vez mais perturbador.
A pobreza e a feiúra são uma merda. Crescer na borda de uma cidade do interior próximo confere a singular experiência de viver entre a periferia e a roça, entre o mano e o jeca.
Na metrópole, vejo as pessoas e sempre identifico um tiozinho (arquetípico, em todo ônibus tem algum) com uma ponta de franja precisamente desalinhada entre a pálpebra e a sobrancelha. A visão periférica alerta comportamentos repelentes.
Ele estava limpando o salão. Isso mesmo: direi que penetrando orifícios com partes do corpo que lá não deveriam estar, menos ainda em público, rigorosamente configurando sodomia (fornicatio in vasu improprio). O queixo proeminente, sombreado pelo nariz aquilíneo, me lembrou Dürer pela severidade dos contornos. O sorriso, pontuado de vãos entre os dentes, evocava a carga e o humor de certos trabalhos de Daumier. Eu vi uma touca de feltro vermelho puída, como as dos camponeses de Bosch, mas os olhos denunciaram cabelos lisos e molhados, porque a construção subjetiva aniquilou (fac nihil, annihilate) o mundo sensível. Estamos na nova idade média, foi a revelação. Substituir drogas sempre exige adaptação, e ler bulas causa efeito placebo.
Em verdadeiro stásis sinestésico, a cinestesia acusou o movimento do veículo coletivo enquanto eu via nos dedos grossos, lisos e brilhantes da senhora sentada à minha frente, exalações dum cheiro de hipoclorito com pele. Roupas desbotadas e sujas, desfiadas e fedidas, as que ela vestia e as que ela lava para viver. Esses estímulos fizeram falta, por muito tempo um ostracismo auto-imposto (assim sei que prega a Nova Gramática, mas da velha já não lembro há muito tempo). :P Tenho pensado nas idéias de Durkheim, talvez demais, pressionado que fui a conhecê-las... Novos instrumentos, novos brinquedos. Como as cíclicas modas em que entram e saem milenares jogos de tabuleiro.
O flâneur é ancestral do tourist. Mas pareço mais um sloppy dandy.
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