Paralisia decisória e segurança alimentar
Comecei a escrever para uma amiga o que acho de organismos geneticamente modificados (OGM's).
Curiosamente, percebi que não tinha uma opinião definível e clara, por conta do excesso de informação. E justamente esta semana, em dois veículos diferentes, li abordagens diferentes sobre o mesmo problema, que só tende a piorar. Uma e outra não ajudaram. Mas meus pensamentos seguem abaixo.
É uma questão complicada. Citei um filme, o "The Corporation", que denuncia vários podres relacionados a grandes empresas em geral. Uma das situações fala de leite. Vacas leiteiras frequentemente sofrem de uma infecção chamada mastite, que afeta as tetas, e sem tratamento a bichinha solta pus. Como fazem com frango, os criadores misturam aditivos à ração delas, in casu antibióticos, que chegam ao leite. Esse é uma das POSSÍVEIS causas do surgimento de infecções cada vez mais resistentes a antibióticos em humanos. A jornalista da FOX que cobriu a matéria, que denunciava a Monsanto e a Cargill foi demitida, e insinuava o filme que um motivo seria alguma dessas empresas ter comprado ações do grupo FOX, acho. Preciso rever o filme.
De fato, alguém alérgico a gluten ou amendoim pode ter problemas com OGM's portadores de genes dessas plantas. E, apesar das precauções nos campos experimentais, sempre há possibilidade (ou probabilidade) da contaminação das populações "puras" (como aconteceu com as abelhas africanizadas que fugiram de Rio Claro e já chegaram aos euA, num dos maiores desastres da ciência brasileira). Acredito que já consumimos OGM, mas inexiste legislação que exija o rotulamento de tal informação.
Defendo o consumo de alimentos orgânicos, apesar de um saudável ceticismo com relação às entidades certificadoras. Esse é um ponto fraco na minha opinião, pois não existe legislação que descreva produto orgânico, tampouco regulação sobre a atuação dessas certificadoras. Em Brasil, o quociente ético é baixo, e sabemos o que pode acontecer nessas situações.
Por outro lado, a "revolução verde" ocorrida a partir dos anos 60 possibilitou aumentos de produtividade sem os quais o cerrado brasileiro não seria o segundo maior produtor mundial de de soja, nem teríamos recorde mundial de produtividade de arroz, e provavelmente já estaríamos numa crise mundial de abastecimento (existe um tal de Neomalthusianismo). E há o problema de 1 Kg de carne exigir muito mais área e água que 1Kg de cereal, além da crueldade no manejo e abate, mas isso ainda é uma questão de conscientização individual. Porém, produtos orgânicos também precisam de maior área para sua produção, e demoram mais do plantio à colheita, e exigem mais mão-de-obra. Donde se conclui que, resolvesse toda a população do planeta só consumir produtos orgânicos, não haveria área, água, tempo e mão-de-obra para produzir. O que não extingue minha defesa pelo aprimoramento das técnicas de cultivo orgânico.
Hoje as pessoas vão ao mercado e querem só as maçãs mais bonitas e perfeitas, sem marcas de bicho nem machucados. Eu mesmo já vi uma maçã tão bonita que exclamei: "é tão perfeita que parece feita de cera", e percebi algo perversamente errado no que disse. Não lembro onde vi o depoimento de um octagenário senhor inglês, dizendo que em sua juventude havia maçã para comer crua, maçã para fazer compota, maçã para fazer torta, maçã para fazer sidra, e que hoje ele vai ao mercado e só vê dois ou três tipos de maçã. Isso ilustra bem o empobrecimento genético dos produtos que consumimos. A partir dos anos 60, variedades tradicionais de vegetais perfeitamente adaptados a solos e climas diversos foram substituídos por sementes produzidas industriamente. As grandes empresas de sementes e insumos agropecuários do mundo oferecem sementes que produzem muito mais, só que isso uniformizou geneticamente as safras e as tornou muito vulneráveis a instabilidades climáticas, doenças e pragas. Pragas combatidas por produtos dessas mesmas empresas. Quem sabe, criados por elas.
Contribuindo negativamente com o cenário existem os organismos híbridos que já consumimos há décadas. O problema é que quando o pequeno produtor opta por usar, por exemplo, milho híbrido, o grão que ele colher será bom para vender, mas não germinará, e ele assim se torna refém dessas empresas.
E há o "locavorismo", consumir produtos da região, que não dependem de poluente e caro transporte para chegar a nós. Isso é um conceito que também deveria ser mais lembrado.
Enfim, o assunto "segurança alimentar" é um de que ainda vamos ouvir falar muito.
E me sinto absolutamente incapaz de dar uma resposta definitiva e simples.


